sábado, 28 de outubro de 2017

Meninos precisam de exemplos

Uma carta ao meu pai
Por Marcos André
[huggosdealrua@gmail.com]
O seu silêncio era estupefaciente!
Meu pai tinha uma forma de calar estrondosa. Preenchia a sala com o seu silêncio – tinha uma forma de calar com dizeres de tudo dito – sem “nãos”, sem gritos.
De frente ao televisor, inerte, nenhum movimento meu o despreocupava. Estava “tudo dito” e ele estava convicto de que eu não agiria de forma contrária. E assim era!
Ele só era assim comigo!
Era legal com todo o mundo. “Ti[1] Zawangoni!”, “Ti Mitxumu!” – assim o chamavam, com respeito e admiração. Meu pai nem era chefe de quarteirão, mas eu presenciava audiências lá em casa. Pessoas que o procuravam incansáveis para pedir conselhos e solução para os seus problemas. As vezes vinham pedir dinheiro, as vezes emprego, as vezes ajuda para conseguir um emprego.
Em nenhuma das vezes vi alguém sair sem resposta. As respostas eram, muitas das vezes, contundentes mas nunca adiadas e, em nunhuma ocasião comentou conosco o que lhe era exposto.
Foi sempre um exemplo!
Lembro-me que a minha mãe andava constantemente doente e o meu pai sempre pernoitava no quartel, anos que ainda arrastavam rumores da guerra finda.
Numa bela manhã vi meu pai se levantar, aprumar-se e sair caminhando a sua sensatez. Eu levantei-me também e o acompanhei. Dirigiu-se até a casa do vizinho Muthemba – “Bom dia, Muthemba!...Se a minha esposa não levantar em duas horas, eu te enfio trinta e duas balas!” – disse meu pai. Disse mais - “Se você quiser a minha esposa, pode levá-la, e me dê a sua que eu a tornarei linda e asseada tal como a minha….Tem preguiça de comprar sabão!?...Já te falei! Tenha um bom dia!”. Foi a primeira, das três vezes na vida, que vi meu pai portando uma arma de fogo. Apesar de servir o exército há mais de trinta e cinco anos.
Acompanhei os passos firmes do cota[2], de volta para casa. Meu pai respirava um ar de quem sabia o que tinha dito, enquanto se preparava para o trabalho. Nesse momento alguém batia a porta. Quem poderia ser?! - Muthemba!
“Vizinho, você entendeste malo, mas eu pode ajudar. Pode preparar uma papinha para a senhora agora?” – dizia Muthemba.
“Dona Gina”, a moça que trabalhava lá em casa, de imadiato preparou as papas sob intrução de Muthemba. Muthemba pegou as papas e deu a minha mãe, que mal conseguia falar, já há quatro dias se encontrava semi-morta naquela cama.
Logo que engoliu as papas, a minha mãe ressuscitou. Escrito aqui, isto até parece um conto, mas é verdade. Eu presenciei este milagre. Deus que me mande um trovão agora!
São terríveis os Maziones[3] da Catembe.
Impressionava-me o jeito do meu pai com as mulheres. Me refiro as mulheres de casa. Era um autêntico galã. Acho que a minha irmã e a minha mãe não têm muito a reclamar. Depois de um longo dia de trabalho, ele voltava e perguntava “O que há para o jantar?”. - “Makhofu[4]!” – respondia a minha mãe. Logo, ele a convidava para o restaurante da zona. Acho que nunca mais irei presenciar tamanho romantismo.  
“Ilda, prepare-se! Vamos!” – A minha mãe costurava as suas rugas com maquilhagem e vestia a sua roupa mais bonita.
Papá não era muito de flores. Lembro-me que eu era quem oferecia flores a mamã no dia de São Valentim. Papá não era nada disso! Ele vestia a sua esposa com as roupas mais caras, a convidava para os lugares mais esplêndidos. As vezes eu via que ele nem estava lá, de tanto cansaço, mas sentava e conversava, enquanto a minha mãe se fazia à um bom vinho e música.
Tive bons exemplos!
O tempo passou - silêncios estrondosos, das coisas que nunca foram verbalizadas. E eu estou aqui, a seis continentes. A outra parte da vida aprendi nessas ruas, nessa liberdade inventada.
Hoje olho para a minha filha Marlena – a comedora de papéis – às vezes ela me bate, me acaricia, grita, se ri de mim, morde com o seu único dente de meia idade, sorri e abraça e, nesse momento eu queria ouvir algumas palavras do meu pai a dizer-me o que devo fazer. As vezes dá saudade de ser filho!
Bem…esta carta, dactilografada de pretérito, até se parece vestir de luto. Mas não é nada disso. Está tudo bem.
A parte mais recente do pretérito, eu a sei pouco. Já faz tempo que eu e o meu pai não sabemos um do outro. Acho que inventamos erros e desculpas.
Eu também me calo por aqui!
Espero que o estrondoso silêncio desta carta te faça redigir uma resposta.
Espero rever-te pai!

Um abraço!


Marcos André




[1] Tio
[2] Giria. Diz-se da pessoa mais velha/pai/mãe
[3] Diz-se dos professantes/sacerdotes da igreja Zione,i.e, igreja cristã da África Austral que reapropria as crenças e práticas curativas baseadas na acção dos espíritos de acordo com as figuras do Espírito Santo e dos demónios.
[4] Couve em Ronga – língua de Moçambique

domingo, 2 de abril de 2017

Carta de Bertlim Mawa

Lar Psicozóico
Tenho lutado com os meus acordares.
Toda vez que as pálpebras se erguem,
o pensamento está lá,
levanta-se e caminha com os meus passos.
É como se ele tivesse pernoitado no canto do quarto
a espera de eu acordar.
Sorrir dói-me!
Destreinaram-se os músculos da face.
O livre-arbítrio mutilado,
nem por educação consegue pôr-se de joelhos. 
Estou apenas a existir.
A vida perdeu graça!
Rodeiam-me pedidos que são ordens,
agradecimentos que são mera formalidade.
Chamam de civismo a esse desamor.


Marcos André